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Reportagens

“FUI ABUSADA, CAÍ NA PROMISCUIDADE E QUASE PERDI A MINHA VIDA, MAS JESUS RESTAUROU-ME”, TESTEMUNHA ENIA BANZE, LEVITA DO SENHOR

Custodio Come · 14 de Outubro de 2026 · 11 min de leitura

Chama-se Enia Banze, nascida e alojada nos escombros do inferno. Jovem bonita, mas cuja vida quase foi tornada feia pelas feridas do passado, pelo abuso sexual e pelas escolhas que a afastaram de Deus. No ano de 2005, enquanto nos papiros dos céus nascia um propósito, nos rascunhos do abismo parecia escrever-se mais um capítulo de dor, confusão e desvio. Mas Jesus tocou na vida de Enia e mudou o rumo da sua história.

Numa conversa com a Gospel Mahungu, a jovem abriu o coração e contou um testemunho marcado por abusos sexuais na infância, perda da mãe, experiências espirituais assustadoras, envolvimento com homens comprometidos, recurso a práticas tradicionais na esperança de mudar a sua vida sentimental e uma nova aproximação a Cristo. Entre quedas, lágrimas e momentos em que pensou não suportar mais, Enia diz ter encontrado em Jesus a força para continuar e a coragem para perdoar.

“Este é o meu testemunho… Vou contar a minha história”, começou criando um grande suspense a Gospel Mahungo.

Uma infância ferida e uma adolescência marcada pela dor

A história de Enia começou com feridas que nenhuma criança deveria conhecer. Aos quatro anos, sofreu abuso sexual, uma experiência que, segundo relata, afectou profundamente a sua infância. Os pais descobriram o sucedido e, depois de algum tempo, a família procurou ultrapassar aquela fase. Contudo, a dor não terminaria ali, abraçou-a no silêncio.

Ainda na infância, Enia voltou a sofrer abuso sexual, desta vez por parte de um jovem que conhecera. A situação tornou-se ainda mais dolorosa quando o caso chegou ao conhecimento de outras pessoas e começou a ser divulgado, expondo-a perante a sociedade.

A vergonha, o trauma e a exposição agravaram o seu sofrimento emocional, levando-a, segundo conta, a enfrentar uma depressão.

Por detrás do sorriso de uma jovem, havia uma criança ferida que crescia a carregar marcas que não escolhera. Mas, como está escrito em Salmos 34:18, “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado”.

A passagem bíblica encontra eco no relato de Enia, cuja história viria a ser atravessada por outras provações antes de encontrar aquilo que hoje descreve como restauração.

Conheceu Jesus, mas ainda não compreendia o caminho

Em 2017, Enia conheceu Jesus. No entanto, admite que, naquela altura, ainda não compreendia plenamente a fé cristã nem tinha desenvolvido uma relação profunda com Deus.

Nesse mesmo ano, a sua vida sofreu outro golpe: perdeu a mãe. O pai, que vivia na África do Sul, regressou a Moçambique para o enterro. A morte da mãe tornou-se um dos momentos mais difíceis da sua vida, somando-se às feridas emocionais que já carregava.

Em 2018, enquanto frequentava a escola, recorda-se de ter evangelizado alguns colegas e de ter visto amigos aceitarem Cristo. Porém, naquele mesmo período, começou a viver experiências que lhe provocavam um medo intenso.

Segundo o seu testemunho, começou a ouvir uma voz que a chamava. Inicialmente, pensou tratar-se de algo da sua imaginação, mas as experiências repetiram-se e tornaram-se mais intensas. O medo era tão grande que já não conseguia ir sozinha à casa de banho nem deslocar-se à escola sem a companhia de alguém.

Enia conta que procurou ajuda em algumas igrejas, mas não encontrou o alívio que esperava. Emagreceu bastante e a sua rotina ficou profundamente condicionada pelo medo. Perante a situação, os pais decidiram levá-la a um curandeiro. Depois dessa experiência, afirma ter deixado de ouvir as vozes, embora tenha enfrentado sequelas e recuperado gradualmente.

Apesar de continuar a frequentar a igreja, reconhece que ainda não se tinha entregue totalmente a Cristo.

Quando a desilusão sentimental abriu a porta a outras escolhas

Em 2021, a mudança de Albazine para Bobole marcou uma nova etapa da sua vida. Contudo, foi em 2022 que, segundo relata, as suas fragilidades emocionais e a busca por soluções para os problemas sentimentais a conduziram a decisões das quais viria a arrepender-se.

Enia conheceu um jovem comprometido, por quem desenvolveu sentimentos, mas que não podia estabelecer uma relação com ela por ser casado. Mais tarde, aproximou-se de outro jovem que também tinha namorada, mas demonstrava interesse nela.

Nessa fase, enfrentava igualmente dificuldades financeiras para pagar a mensalidade escolar e chegou a pensar em vender o telemóvel. O segundo jovem deu-lhe dois mil meticais e, no meio das suas decepções amorosas, surgiu a proposta de procurar uma curandeira que, alegadamente, poderia ajudá-la a mudar a sua sorte sentimental.

Embora ainda orasse e frequentasse a igreja, Enia admite que não tinha intimidade suficiente com Deus para resistir à ideia de procurar uma solução fora da fé que professava.

Decidiu, então, viajar para Gaza. Em busca de respostas…

Antes de entrar na casa da curandeira, recorda ter sentido aquilo que interpreta como um aviso do Espírito Santo de que não voltaria a entrar na igreja. Ainda assim, prosseguiu, convencida de que a sua vida poderia mudar.

Segundo conta, a consulta custou 3.500 meticais. Durante o ritual, foram sacrificados dois galos, e ela recebeu instruções para tomar banho com uma água preparada no local, evitar olhar para trás ao sair e permanecer 24 horas sem tomar banho. A curandeira também lhe recomendou que colocasse debaixo da língua uma substância apresentada como remédio antes de falar com qualquer homem, prática que, afirma, passou a repetir todas as manhãs.

Enia acreditava que estava a preparar o caminho para uma mudança. No entanto, a transformação que esperava não aconteceu como imaginara.

Da procura pela sorte ao mergulho numa vida que a afastava de Deus

Dois dias depois de regressar de Gaza, começou a relacionar-se com o jovem que lhe tinha dado os dois mil meticais. Segundo relata, envolveu-se sexualmente com ele e passou a viver situações que, na sua avaliação, a afastavam cada vez mais dos princípios cristãos.

Mais tarde, voltou a envolver-se com o primeiro jovem, aquele por quem já tinha sentimentos. A relação com os dois homens, ambos comprometidos, tornou-se parte de um período que hoje recorda com arrependimento.

Enia conta que chegou a manter relações sexuais em diferentes circunstâncias, incluindo na rua e em pensões. A sua vida sentimental tornou-se instável, e outros homens começaram a procurá-la com propostas que, segundo diz, estavam associadas a dinheiro e mais nada.

A jovem reconhece que as suas escolhas foram marcadas por carências emocionais, desilusões e pela procura de uma solução imediata para os seus problemas. Contudo, a sua história não pode ser reduzida a essas escolhas: por detrás delas havia também um passado de violência sexual e sofrimento que precisava de ser enfrentado.

É neste ponto que a sua narrativa encontra uma passagem bíblica de esperança. Em Isaías 43:19, lê-se: “Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz”.

Para Enia, a possibilidade de uma vida diferente começaria quando decidiu romper com práticas e comportamentos que, na sua consciência, a afastavam de Deus.

e foi ai que o vento soprou….Abril de 2023: o momento em que decidiu romper com o passado

Em Abril de 2023, Enia recorda um momento que considera decisivo na sua caminhada espiritual. Estava no quarto quando ouviu uma pregação da pastora Camila Barros, cuja mensagem apelava ao afastamento de tudo aquilo que separa uma pessoa de Deus.

A mensagem encontrou-a num período em que já carregava objectos e substâncias associados aos rituais que havia realizado: cordas colocadas à cintura, produtos para banhos e aquilo que costumava colocar debaixo da língua.

Depois de ouvir a pregação, decidiu livrar-se de tudo. Colocou os objectos no lixo, mas, passados alguns dias, voltou a sentir vontade de recuperá-los. Foi então que tomou uma decisão definitiva: queimou-os.

Na sua interpretação, aquele gesto representou o início de uma batalha para abandonar práticas que considerava incompatíveis com a sua fé.

Entretanto, a mudança não aconteceu de forma instantânea. Na mesma semana em que decidiu mudar, voltou a envolver-se sexualmente com outras pessoas, incluindo alguém com quem já tinha terminado uma relação. Recorda ainda ter visitado um amigo de quem gostava, mas acabou rejeitada.

Em Junho de 2023, depois de conhecer outro jovem e voltar a envolver-se sexualmente com ele, regressou da casa do avô decidida a falar com Deus sobre o estado da sua vida.

Enia conta que já não suportava continuar naquele ciclo. Precisava de uma mudança que não dependesse de relacionamentos, promessas humanas ou soluções imediatas.

A Bíblia apresenta, em Lamentações 3:22-23, uma mensagem que dialoga com este momento de recomeço: as misericórdias do Senhor “renovam-se cada manhã”. Para a jovem, a possibilidade de recomeçar não significava apagar o passado, mas deixar de permitir que ele determinasse todo o seu futuro.

O encontro que a aproximou de Cristo e uma nova ferida em 2024

Cerca de 12 dias depois daquela decisão, Enia conheceu o jovem que viria a ser seu namorado e que, segundo conta, teve um papel importante na sua aproximação a Cristo. Recorda que ele orou com ela logo no primeiro dia em que se conheceram.

A partir daí, afirma ter aprofundado a sua relação com Deus, sobretudo entre 2023 e 2024. Porém, mesmo quando procurava reconstruir a sua vida, ainda enfrentaria outra experiência traumática.

Em 2024, Enia relata ter sido vítima de violação sexual por parte de um homem que demonstrava interesse nela. Segundo o seu testemunho, o homem não aceitou a decisão de ela não manter uma relação com ele e terá preparado uma situação para a violentar.

A jovem conta que foi trancada na casa do agressor, que ligou a sua motorizada para produzir barulho e impedir que os pedidos de socorro fossem ouvidos. Enia diz ter clamado a Deus durante o episódio, até que o homem a deixou.

Depois da violência, enfrentou uma depressão que descreve como terrível. O sofrimento foi tão profundo que apenas os irmãos souberam do que tinha acontecido, sem que o pai tivesse conhecimento do episódio.

Mais uma vez, a sua história foi atravessada por uma violência que não merecia sofrer. E importa sublinhar: a responsabilidade pelo abuso é sempre de quem o pratica, nunca da vítima, independentemente das suas escolhas sentimentais ou do seu percurso espiritual.

No meio da dor, Enia afirma ter encontrado em Deus a força para continuar a caminhada. Diz que, gradualmente, conseguiu recuperar-se emocionalmente e que decidiu perdoar as pessoas envolvidas nas experiências dolorosas que marcaram a sua vida.

Em Salmos 147:3, a Bíblia declara: “Sara os quebrantados de coração, e lhes acta as suas feridas”.

É nesta promessa de cuidado e restauração que Enia encontra palavras para descrever a sua caminhada. O perdão que afirma ter escolhido não apaga o que aconteceu, não transforma a violência em algo aceitável nem retira ao agressor a responsabilidade pelos seus actos. Representa, na sua fé, uma decisão de não permanecer prisioneira da dor.

Uma história de sobrevivência, fé e recomeço

Ao concluir o seu testemunho à Gospel Mahungo, Enia Banze apresenta a sua história como um percurso de quedas, sofrimento, arrependimento e reencontro com Deus. Da criança que sofreu abusos sexuais à jovem que enfrentou a perda da mãe, o medo, a instabilidade sentimental e uma nova violência sexual, a sua caminhada foi marcada por experiências que deixaram profundas cicatrizes.

Hoje, é a fé em Cristo que ela aponta como fonte da força que encontrou para continuar, recuperar-se e perdoar.

A sua história recorda que a dor não deve ser romantizada, que as vítimas de abuso precisam de protecção e apoio e que a procura de ajuda não deve limitar-se à dimensão espiritual: o acompanhamento psicológico e os cuidados de saúde também podem ser fundamentais na recuperação de quem enfrenta traumas.

Para Enia, porém, há uma certeza que permanece no centro do seu testemunho: apesar de tudo o que viveu, não desistiu de continuar.

Como escreveu o apóstolo Paulo em 2 Coríntios 5:17: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.

Ernesto Pagula

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